Eu sei, mas não devia. Eu sei que a gente se acustuma. Mas não devia. A genti se acustuma e à medida que se acustuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.A genti se acustuma a deitar e dormir pesado sem ter vivido o dia. A genti se acustuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: "Hoje não posso ir". A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisa tanto ser visto. A gente se acustuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. A gente se acustuma para não ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acustuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se da faca e da barioneta, para poupar o peito. A gente se acustuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que de tanto se acustumar, se perde de si mesma.
Eu sei, mas não devia - Marina Colasanti
sexta-feira, 10 de abril de 2009
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